segunda-feira, 17 de maio de 2010

Soneto do Desmantelo Azul


- Carlos Pena Filho -


Então pintei de azul os meus sapatos

por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.


Para extinguir em nós o azul ausente

e aprisionar no azul as coisas gratas
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.


E afogados em nós, nem nos lembramos

que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos


e vimos que entre nós nascia um sul

vertiginosamente azul. Azul.


quarta-feira, 5 de maio de 2010

- E HOJE -


62.

HSIAO KUO
A PREPODERÂNCIA DO PEQUENO
livro primeiro:

Acima: CHÊN, O INCITAR, TROVÃO.
Abaixo: KÊN, A QUIETUDE, MONTANHA.





nota do autor
No hexagrama 28, PREPONDERÂNCIA DO GRANDE, as linhas fortes predominam e encontram-se no interior, encerradas entre duas linhas fracas, uma ao início e outra ao final. No presente hexagrama, são as linhas fracas que predominam, embora aqui também elas estejam no exterior e as linhas fortes permaneçam no interior. Nisso justamente consiste o caráter excepcional da situação indicada pelo hexagrama. Quando as linhas fortes estão no exterior, têm-se o hexagrama I, A NUTRIÇÃO (27), e o Chung Fu, VERDADE INTERIOR (61). Nenhum deles se refere a uma situação de exceção. Quando as linhas fortes estão em maioria no interior do hexagrama, elas impõem sua vontade. Isso dá origem a lutas e a condições excepcionais em geral. Mas no presente hexagrama é o elemento fraco que, por força das circunstâncias, terá de servir de mediador com o mundo externo. Quando um homem ocupa uma posição de autoridade para a qual ele é por natureza realmente inadequado, uma extraordinária prudência é necessária.

julgamento

A PREPONDERÂNCIA DO PEQUENO.

Sucesso.

A perseverança é favorável.
Pequenas coisas podem ser realizadas, grandes coisas não devem ser feitas. O pássaro, voando, traz a mensagem: não é aconselhável o esforço em direção ao alto, é aconselhável permanecer embaixo. Grande boa fortuna!

Uma extraordinária modéstia e um espírito consciencioso, sem dúvida, serão recompensados pelo sucesso. Todavia, para que o homem não se desperdice, é importante que essas qualidades não se transformem em formalismo vazio e subserviência, mas que sejam sempre acompanhadas por uma íntegra dignidade em seu comportamento pessoal. É necessário que se compreendam as exigências do momento para que se possa encontrar a adequada solução para as carências e danos que um tal período implica. De qualquer modo não se deve esperar grandes sucessos, pois falta a força necessária para tanto. Por isso é tão importante a mensagem de não alimentar aspirações muito altas e sim de limitar-se a metas humildes. A estrutura do hexagrama sugere a idéia de que essa mensagem é trazida por um pássaro. No hexagrama Ta Kuo, PREPONDERÂNCIA DO GRANDE (28), as quatro linhas fortes, pesadas, no interior, apoiadas em duas linhas fracas no exterior, sugerem a imagem de uma viga-mestra cedendo. Aqui as linhas fracas de sustentação estão ambas no exterior e em maioria. Isso sugere a imagem de um pássaro voando nas alturas. Mas um pássaro não deve se superestimar tentando voar em direção ao sol; ele deve descer para a terra onde está o seu ninho. Assim, ele transmite a mensagem anunciada pelo hexagrama.

imagem

Trovão sobre a montanha:
a imagem da PREPONDERÂNCIA DO PEQUENO.
Assim o homem superior em sua conduta faz com que prepondere o respeito. Em casos de luto ele faz com que o fator preponderante seja a tristeza. Em suas despesas, faz com que prepondere a parcimônia.

O trovão na montanha é diferente de quando ocorre na planície. Na montanha o trovão parece estar muito mais próximo, enquanto que fora das regiões montanhosas é menos audível que numa tempestade comum. Assim o homem superior extrai, dessa imagem, um imperativo: ele deve, em todos os momentos, fixar sua atenção mais detalhada e diretamente sobre o dever do que o homem comum, mesmo que isso possa fazer a sua conduta parecer mesquinha aos olhos do mundo. Ele é especialmente consciencioso em seus atos. Em caso de luto, a emoção significa mais para ele do que as formalidades externas do cerimonial. Em seus gastos pessoais ele é muito simples e despretensioso. Tudo isso faz com que frente ao homem do povo ele se sobressaia como alguém excepcional. Mas o significado essencial de sua atitude reside no fato de que em assunto externos ele está ao lado dos humildes.

Seis na sexta posição significa:
Cruzando com ele sem ir a seu encontro.
O pássaro em seu vôo o abandona. Infortúnio!
Isso significa infelicidade e prejuízos

Quando se atira demasiado para o alto, o alvo não será atingido. Se o pássaro não retorna ao seu ninho, porém voa cada vez mais para o alto, acaba por cair na rede do caçador. Aquele que não sabe se conter durante o período em que a tendência a pequenas coisas é preponderante e que, irrequieto, insiste em forçar seu caminho para adiante cada vez mais, atrai sobre si o infortúnio tanto da parte dos deuses como dos homens. Isso ocorre porque ele se afastou da ordem da natureza.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Flores de Maio


Estão em botão, na minha mão,
Sob a sombra da varanda, eu criança
E o Sol dourando então alcança
O vão, o sul real que raia da
Ilusão, que é o véu que veste
A matriz celeste das flores,
Pó de estrelas, a fina alquimia,
A essência. Um dia elas se abrirão,
Como olhos, asas de borboletas,
Visões efêmeras da perfeição.
Duram quanto uma canção,
Cadenciam o coração, tornam-
Se lugar comum, no bom sentido
Da sabedoria popular que se
Alastra como raíz que abarca
Terreno profundo, lugares
Ermos que perscrutam os
Termos do desapego, dança
Dos astros, achado, acasos, caos
Ordenado em grandes ciclos
De reconhecimento. Acordei.
A nota lá. Vibrando. Eu era
Etérea, pai. Eu caminhava.
Eu era elétrica, como a água.
Em sopro atento meus cabelos
Se oriçavam, iluminada que estava
Sob a Lua minguante escorpiana
E a Santa Ayahuasca, o vinho
Da Alma que me desencanta,
Curando a ressaca do vício
Com a magia arbórea que é
A Alquimia Essencial que me
Transborda e me assegura a mão
Pra eu poder ver nessa escuridão.
Eu sou filha da Terra que me
Conserva em seu seio, mesmo
Não estando desperta, ainda,
Mesmo claudicando, o chamando em vão, uma
Subvida que duvida que a chama divida e
Há de amanhecer, que é descrer
Na Roda Divina que nos faz perecer,
Não vê-se ainda que o homem
- Perdão, eu, eu pai, tenha sido feita,
Assim, artista, sonhadora, dona
De um equipamento mental
Feito para ver além porém sem
Força espiritual para manter
Um mínimo funcionamento do potencial
Cerebral que estabeleça a geral
Percepção fractal que vibra
Reconfigurando as certezas.
Proponho que se estabeleça
A firmeza na fé do desabrochar,
Da visão arcaica - radical, flores no meio
De minhas lembranças, outono,
Permeio, dias azuis e nuvens
Altas, noites frias, passeios
Sombrios, rodeada de folhas
Secas, reescritas, inscritas na terra, raízes
Que se deitam e renascem ilesas,
à flor da terra, de mão dada com a

Existência.

- Tau -

sábado, 17 de abril de 2010

- Poemas de Um Terno de Pássaros ao Sul -



Fabricio Carpinejar



- Fragmento I -


Pouco crescemos
no que aprendemos,
o sabor

de um livro antigo
está em jovem
esquecê-lo.

Eu alterei
a ordem do teu ódio.
Fiz fretes de obras

na estante.
Mudava os títulos
de endereços

em tua biblioteca
e rastreavas, ensandecido,
aquele morto encadernado

que ressuscitou
quando havias enterrado
a leitura,

aquele coração insistente,
deixando atrás uma cova
aberta na coleção.

Sou também um livro
que levantou
dos teus olhos deitados.

Em tudo o que riscavas,
queria um testamento.
Assim recolhia os insetos

de tua matança,
o alfabeto abatido
nas margens.

Folheava os textos,
contornando as pedras
de tuas anotações.

Retraído,
como um arquipélago
nas fronteiras azuis.

Desnorteado,
como um cão
entre a velocidade

e os carros.
Descia o barranco úmido
de tua letra,

premeditando
os tropeços.
Sublinhavas de caneta,

visceral,
impaciente com o orvalho,
a fúria em devorar as idéias,

cortar as linhas em estacas da cruz,
marcá-las com a estada.
Tua pontuação delgada,

um oceano
na fruta branca.
Pretendias impressionar

o futuro com a precocidade.
A mãe remava
em tua devastação,

percorria os parágrafos a lápis.
O grafite dela, fino,
uma agulha cerzindo

a moldura marfim.
Calma e cordata,
sentava no meio-fio da tinta,

descansando a fogueira
das folhas e grilos.
Cheguei tarde

para a ceia.
Preparava o jantar
com as sobras do almoço.

Lia o que lias,
lia o que a mãe lia.
Era o último a sair da luz.